O sociólogo argentino Oscar Landi atribui à
informação o seguinte significado: só
quem sabe acerca da realidade pode lhe dar sentido e
para conhecer o que se passa à nossa volta, necessitamos
do pleno fluxo de informações. Assim montamos
nossas estratégias de ação. Ou
seja, para que possamos construir o futuro na direção
da liberdade e da felicidade, temos de compreender o
mundo em que vivemos. Se o jornalista é efetivamente
um mediador social, promovendo o fluxo de informações
do cotidiano, ele atua como produtor responsável
de sentidos. Sentidos esses que pretendem, acima de
tudo, iluminar as estratégias de mudança.
Caso contrário, o jornalista é mero reprodutor
dos significados dominantes, vale dizer, da desumanização
do presente e do futuro.
Emiliano José pertence àquele grupo de
jornalistas que se define eticamente: para ele, não
há dúvida nem subterfúgios quanto
à sua adesão. Nos anos 60, diríamos
um jornalista engajado; três décadas depois,
preferimos situa-lo como um jornalista responsável
perante a sociedade onde atua.
O que de imediato chama a atenção no
seu texto é a transparência do ponto-de-vista.
Não se esconde sob a pele de uma terceira pessoa
neutra e objetiva, embora, formalmente, a use. A terceira
pessoa do mediador social da informação,
matizada pela primeira pessoa do autor, tem como referência
fundamental o olhar brasileiro, enraizado na geopolítica
do Mundo Sul. Ou, se considerarmos o fluxo de informações
no âmbito nacional, ele está do lado das
maiorias oprimidas (locais e regionais). O foco narrativo
do jornalista não se mascara, sob pretexto técnico,
de pretensa objetividade; recusa-se a lidar asceticamente
com os conflitos de nossa realidade.
Que não se tema o reducionismo chauvinista,
o discurso apriorístico sobre os problemas sociais
ou a miopia argumentativa de certos diagnósticos.
Neste momento, na imprensa brasileira, deve-se sim,
temer o reducionismo multinacional, o discurso tecnicista
e a miopia do ultrapassado critério do certo
e errado. Os textos de Emiliano José, por mais
polêmicos que sejam, se apóiam em fatos
e conceitos que fundamentam significados de ruptura.
Sob o disfarce da objetividade, grande parte dos sentidos
correntes no jornalismo acentuam a inércia do
raciocínio perante a ardilosa ideologia dos poderosos.
Neste sentido, a tensão que emana do discurso
jornalístico do autor não é sem
virulenta, nem irônica como ocorre em outros diagnósticos.
A reflexão de Emiliano José toca o leitor
pela energia que provém das próprias situações
sociais e não pelo rancor. Prefere, por outro
lado, ondular seu pensamento através do tônus
brasileiro, em nenhum momento cede ao sarcasmo. Avança
na argumentação, com informações
precisas, descartando juízos de valor inconsistentes.
O resultado de tais virtualidades posta em prática
é que sentimos reaflorar o ensaio jornalístico.
Levantar, analisar e sentir a realidade imediata se
transforma, nestes textos, numa compreensão de
mundo, hoje indispensável para a sobrevivência
do sonho brasileiro. Emiliano José indaga sobre
a Nova República, o socialismo, o Brasil e a
ordem econômica mundial, a América Latina:
seriam estes temas esgotados pela retórica jornalística?
O autor mostra que não: há muito por dizer
sobre o Estado Democrático e a participação
política, a reforma agrária ou a falaciosa
dicotomia privatização-estatização.
Todos, temas que dão significado ao dramático
cotidiano do povo brasileiro. Quem diria? Imaginávamos
que muitos deles estariam superados há vinte
anos. No entanto, às vésperas do século
XXI, um promissor tempo para os credores do Mundo Norte,
continuamos estrangulados pelos impasses que eles nos
criam. O autor destes ensaios não se deixa vencer
pela perplexidade, mantém viva a palavra denunciadora.
Este livro documenta o grito de inconformidade, que
ainda não foi sufocado no jornalismo. Não
bastou ingressarmos em uma fase de liberdades formais,
porque o discurso jornalístico segue aprisionado
a velhas limitações, ainda que se diga
progressista. Uma delas é o olhar estrábico
com que capta nossa cultura e nossa sociedade, postas
em confronto com a universalidade e as estruturas de
poder internacionais. A mentalidade que impera nas pautas,
noticiários e diagnósticos sobre o cotidiano
não traduz adesão nem ao imaginário
nem à realidade do povo brasileiro. Por isso,
são raros os textos que falem de sua condição
humana, ou melhor desumana. Preferem-se até mesmo
palavras estrangeiras para compreender a condição
humana da grandes metrópolesdo Primeiro Mundo.
Por exemplo, a dança que se está praticando
na Europa unificada do projeto 1992 da CEE. Enquanto
isso, as palavras plangentes da cultura da hiper-inflação,
dos sem-terra e dos sem-teto, dos despossuídos
do mínimo para sobreviverem ficam relegadas a
instantes televisivos de campanhas beneméritas
como Criança-Esperança.
Se um dia o leitor do futuro quiser ouvir a voz rebelde
destes amargos tempos, certamente a encontrará
em Emiliano José e naqueles jornalistas que não
se envergonham de aderir a seu povo e seu cotidiano,
que não desistem de se pôr ao lado do projeto
de humanidade neste território.
Cremilda Medina
Outubro/1989