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Prefácio do Livro

UM ANJO NOS CÁRCERES

Frei Betto*

Confesso que, ao iniciar a leitura desta obra de Emiliano José, fiquei com o pé atrás. O que haveria de interessante na biografia do meu querido amigo padre Renzo Rossi? Sacerdotes têm, quase sempre, uma trajetória de vida que não coincide com a do comum dos mortais. São aventureiros de Deus, sempre se movendo de um lugar para o outro, vivendo situações inusitadas, enfrentando riscos. Sobretudo aqueles que, como Renzo, decidem trabalhar em áreas de fronteira: o mundo operário, os cárceres de uma ditadura, os pobres da periferia.

Aos poucos, encantei-me pela qualidade do texto. Primeiro, porque Emiliano José logrou narrar, com muita propriedade e talento, uma pastoral carcerária sui generis: a presença de um sacerdote junto a prisioneiros políticos do regime militar brasileiro (1964-1985). Nem cardeais entravam facilmente nas prisões. E, se havia pastoral, ela decorria da presença de leigos cristãos, religiosos e padres nos cárceres, como réus, e não imbuídos de uma missão confiada pelos bispos ou, como no caso de Renzo Rossi, derivada de um carisma muito pessoal que, apesar dos riscos, ele abraçou com amor.

A segunda grande qualidade desta obra é fazer do relato biográfico de padre Renzo o fio condutor que permite ao leitor percorrer as cadeias que, no Brasil, guardaram milhares de pessoas, sobretudo jovens, comprometidos com a luta de resistência à ditadura. Assim como Cervantes nos faz entender a passagem do período medieval ao moderno através das aventuras de Dom Quixote e seu fiel Sancho Pança, e Guimarães Rosa nos mergulha no universo mágico do sertão mineiro desfazendo o novelo amoroso de Diadorim, Emiliano José dá um close em Renzo Rossi e, página a página, abre as suas poderosas lentes sobre os meandros da ditadura, o sofrimento das vítimas, as torturas, os gestos de ternura, a saga dos exilados, as fugas, os medos e as esperanças.

A obra inclui-se na bibliografia carcerária como uma das mais significativas, imprescindível para quem se interessa em conhecer melhor os anos de chumbo ou os subterrâneos da história.

Padre Renzo não foi o único sacerdote a se dispor à difícil e arriscada missão de visitar presos políticos e consolar suas famílias. Conheci um outro, italiano como ele, o servita Heitor Turrini, que saía do Acre para, em São Paulo, levar seu apoio amigo e pastoral a nós, que estávamos trancafiados no Presídio Tiradentes. E é possível que, no futuro, os pesquisadores descubram outros homens e mulheres de “asas invisíveis”, que amenizavam o sofrimento das vítimas da ditadura.

Recordo-me do padre Luís Marques, capelão da Polícia Militar de São Paulo que, contra nossos conselhos, levava para dentro do Presídio Tiradentes refrigerantes e cervejas para comemorar o aniversário de um dos frades presos. E, como não era revistado, aceitava sair com as nossas denúncias de tortura escondidas no pequeno cálice em que nos trazia as hóstias consagradas.

Foi no Tiradentes que conheci padre Renzo, em 1970, quando visitou meu companheiro de prisão e de vida dominicana, frei Giorgio Callegari. Depois, foram muitos encontros, no Brasil e na Itália. O que me chamou a atenção em Renzo foi esta aparente contradição apontada por Emiliano José: embora visitasse aqueles que, frente à opinião pública, eram considerados “terroristas”, sem distinguir cristãos e ateus, Renzo nada tinha de “homem de esquerda”; ao contrário, em matéria de Igreja suas opiniões pouco diferiam dos bispos mais ortodoxos. Nunca o vi afirmar que também desejava uma sociedade socialista. Sua motivação não era ideológica, era teológica; ou melhor, teologal, de quem vive em profunda intimidade com Deus e reconhece-o na face do próximo, em especial dos que sofrem na prisão, com os quais o próprio Jesus se identificou (Mateus 25, 36).

Com seu jeito espalhafatoso, suas risadas estridentes, sua mania de tocar o interlocutor, apalpando-lhe o rosto, Renzo lograva quebrar as resistências do comunista mais anticlerical. Sobretudo, percorria os labirintos da ditadura arriscando a própria pele, a ponto de ser acusado de “pombo-correio” entre as prisões, sem jamais buscar nenhum benefício pessoal. Creio que Renzo Rossi é um desses raros protótipos do homem e da mulher novos, tão sonhados – e pouco realizados - por cristãos, socialistas e comunistas. 

Nos Atos dos Apóstolos há uma passagem que narra como são Pedro e outros apóstolos foram libertados da prisão em Jerusalém: “Durante a noite, porém, o anjo do Senhor abriu as portas da prisão e os fez sair...” (5, 19). Claro, não convinha a Lucas, autor do relato, denunciar os Renzo Rossi que, naquela época, quebravam as barras de ferro que separavam os prisioneiros políticos do povo a quem serviam. Padre Renzo é, para mim, esse “anjo do Senhor”.

Frei Betto é escritor, autor de “Batismo de Sangue” (Casa Amarela), entre outros livros, e esteve preso em junho de 1964, e entre 1969 e 1973

 

Prefácio
"Um anjo nos cárceres", escrito por Frei Betto
Resenhas
"Memória dos anos amargos"
Links
O livro e o personagem na internet
Notícias
30/04/2003
Padre publica livro com oração dedicada a Renzo e Emiliano
28/03/2003
As asas invisíveis do padre Renzo terá edição em italiano

28/03/2003

Ex-presos do Rio de Janeiro promovem lançamento do livro

21/03/2003

Jantar em Salvador une autor, biografado e personagens do livro

13/03/2003

Livro tem lançamento na capital do Ceará

 

 

 
 
 
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